quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O (DES)VALOR DA VIDA... UM ANO DEPOIS!

Fará amanhã um ano que, pouco depois de telefonar ao avô da Ana a felicitá-lo pela passagem de mais um aniversário, recebi a notícia do atropelamento da minha avó, numa passadeira em frente a sua casa.
Não deixa de ser estupidamente curioso que num dia em que estava comemorar a longevidade de alguém que me é querido, quase tenha visto interrompida a vida da minha avó.
Acidentes acontecem, isso não tem discussão. É a constatação da realidade.
A minha avó era completamente independente.
Vivia sozinha, tinha a sua casa imaculada (por vezes chegava a achar que o pó era alérgico àquele apartamento) e diariamente lá ia a pé ao supermercado, visitar as vizinhas das lojas do rés-do-chão, ao "Merino", a casa da "D. Maria Alva", etc.
Foi precisamente ao regressar da Farmácia que foi atropelada naquele final de tarde.
A minha avó foi transportada para o hospital S. Sebastião, em Santa Maria da Feira, depois para S. João da Madeira, depois novamente para a Feira, seguindo para Oliveira de Azeméis, Regressando a S. João da Madeira, terminando em Oliveira de Azeméis (isto no prazo de 45 dias) como se estivesse em condições de fazer "passeios" de ambulância de um lado para o outro (enfim, é a saúde, ou falta dela, que temos).
Quando teve alta hospitalar não estava em condições de regressar a casa, teve de ir para uma Unidade de Cuidados Continuados de média (creio eu) duração, em Castelo de Paiva.
Ficamos a saber que jamais poderia voltar a ficar sozinha. Perdera a sua independência com o acidente.
As sequelas físicas associadas ao desgosto de estar consciente de que jamais voltaria a ter a vida que tinha até 22 de Setembro foram dolorosas para nós, mas acima de tudo para a minha avó que rapidamente começou a sofrer pelo facto de não entender como seria a sua vida de futuro.
A companhia de Seguros foi pagando as despesas relativas à hospitalização e tratamento da minha avó.
Ela é Altina de nome, mas também é Rocha, no apelido e na dureza.
Se algumas foram as vezes em que nos quiseram preparar para um cenário muito mau, iguais foram as vezes em que ela superou tudo e se superou a si mesma.
Com os advogados que defendem o processo relativo ao atropelamento sempre definimos uma estratégia que assente no bom senso, no equilibrio, na razoabilidade.
Bem sei que a minha avó ultrapassou, com os seus 87 anos, a esperança média de vida.
Bem sei que há fórmulas para calcular o valor que as pessoas têm.
No entanto, enoja-me a forma como as pessoas se tratam.
Deparei-me com a situação de saber que a Companhia de seguros em causa pretende atribuir uma valor indmnizatório pelo acidente, no sentido de encerrarem o processo e deixarem de contribuir com uma verba mensal para tratamentos.
Não me parece mal!
Segundo os relatórios médicos a minha avó, fruto do acidente e das consequencias dele advindas, ficou com INCAPACIDADE TOTAL PERMANENTE!
São eles que o dizem e são os seus médicos que o atestam em relatório escrito.
Recebemos a proposta de valor da companhia de seguros no que concerne ao montante de indemnização.
É RIDÍCULO, É UMA AFRONTA, É UM ESCANDALO, É DE UMA FALTA DE HUAMNIDADE A TODA A PROVA, É INQUALIFICÁVEL, É NOJENTO.
O montante proposto pela companhia não paga 6 meses de estadia num lar (sim porque ela já não pode ficar sozinha em casa).
É este o valor que a a vida tem para as companhias de seguros.
A minha avó não precisa de esmola, precisa de respeito e dignidade!
Aprendi cedo que a idade sénior é a idade maior! Maior no conhecimento, na experiência, nos valores. Aquela que mais deve ser acautelada e respeitada.
A minha "Altininha" tinha vida e autonomia. Um acidente tirou-lhe isso!
O tempo que ela vai viver ninguém sabe, mas todos sabemos que até 22 de Setembro de 2010 vivia sozinha, vivia bem.
Se ela vale tão pouco com 87 anos quanto não vale, então, Manoel de Oliveira?
Quanto aos senhores que elaboraram esta proposta de valores, gostava que chegassem a casa e olhassem para as pessoas mais velhas das suas famílias e o fizessem de forma séria, credível, consciente, pensando naquele momento:
De facto só vales isto... mesmo!

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